Agora,escreverei com todos os acentos, menos crase. Não acho a porra da crase.
Este é o primeiro capítulo do livro que estou escrevendo. Não sou escritor, apenas gosto de escrever. Quem quiser que leia. Quem não quiser, que vá ver MTV.
Capítulo 1. Em que tudo faz sentido.
Hoje acordei normalmente, como acordava nos outros dias. Porém, algo estranho ardia em meu peito. Algo ancestral, de muito antes de hoje. Tentei não dar bola, por achar aquilo apenas reflexo dos anos de maus cuidados com meu carregador de alma. Mas ao olhar no espelho do banheiro, percebi que aquela não era uma dor no peito como as que sentia desde 1993. Não era uma dor causada pelo excesso de cigarros, ou pelas garrafas de scotch sem gelo. Algo brotava em meu peito. Uma bolinha dura bem no meio do tórax. Não tinha cor, nem cheiro. Era apenas uma bolinha embaixo da pele, que não estava ali ontem a noite.
O dia no escritório prometia. Revisar relatórios, consertar planilhas, catalogar devedores. Que emocionante. Nada mudou desde o primeiro dia que entrei pela pesada porta de madeira. O relógio ainda conta as horas, os minutos e os segundos. Amores nascem e morrem. Folhas são impressas e jogadas fora. Eu ainda olho pra ela. No primeiro dia, ela nem me viu. Até quinta feira da semana passada, não sabia que eu trabalhava aqui. E agora olha para mim com nojo, com desprezo. Eu nunca faria mal a nenhum ser humano, mas ela transcendia a humanidade, por trás daqueles olhos ardiam chamas milenares, representação e prova viva da existência de algo superior. Tive que agir. A própria evolução da humanidade depende disso. De ações, de atos irresponsáveis como o daquela tarde. A tarde em que a conheci, e a tarde em que a perdi para sempre. Durante os dois anos em que trabalhei naquele lugar, fui apaixonado por ela. E durante esse tempo todo a admirei de longe, calado e incapaz. Mas quinta feira eu resolvi que era hora de tomar uma atitude. Um copo de café era o pretexto perfeito para abordá-la. Esperei até ela estar com meio copo cheio e fui até ela. Olhei para seus lábios. Mesmo calada aqueles lábios falavam comigo. E naquele momento diziam ser a hora de beijá-los. Beijei. Quero dizer, tentei beijar. O café, muito quente, queimou minha cara. Ela virou as costas e foi embora, catalogar devedores.
O pessoal do escritório vez por outra comenta a cena lamentável. A tentativa de beijo. O copo jogado na cara. A humilhação. As mãos sem saber pra onde ir. A dor da completa ignorância nas artes do amar. Mas o pior não eram os olhares irônicos nem os comentários sarcásticos. O pior era que agora sua indiferença era estudada. Sua fuga do meu olhar, racional. Seu desprezo, reforçado por uma imagem construída no caos. Ela é tudo que quero, e eu sou um retrato sujo do que ela mais despreza. Mulheres bonitas não gostam de quem não tem experiência com mulheres bonitas. Não sabemos o que fazer com elas. Mulheres bonitas gostam de desprezo temperado com paixão fulminante, uma combinação complexa e difícil de ser equalizada.E ela era o ápice da beleza, o máximo de harmonia em um corpo humano. A pele, alva e perfumada, era sentida de longe por todos. O perfume da perfeição, com seu cheiro de coisas caras e sofisticadas. Um cheiro que nem tem cheiro, um cheiro psicológico. Sua bunda merecia um capitulo do atlas do corpo humano. Seus olhos, sempre maquiados, traduziam línguas ja esquecidas, animais, primitivas. Falavam comigo, me instigavam a idolatrá-los.Me perdia em seus cabelos, passava horas em suas mãos, perdia meu tempo em suas orelhas. olhava e estudava cada canto dela. Cada cova, cada ruga, cada espinha, cada fio, pêlo, mucosa. E naquela tarde, vendo-a tão perto, era como se Da Vinci oferecesse a Mona Lisa para a pincelada final. Uma obra prima ao alcance das mãos, não somente dos olhos. Ao final, restaram apenas pingos de café sobre um coração partido.
Quando o relógio marcou exatamente 18 horas, peguei meu casaco e saí sem rumo pelas ruas de Porto Alegre. O caminho, óbvio, foi a zona do meretrício baixo, as mazelas da sociedade que proporcionam alívio por vinte reais. Entrei no Bordelzinho Azul Calcinha, nome e cor. Elaine me esperava. Ela era um espelho que refletia todas que quis comer e não comi. Praticamente todas as mulheres pelas quais nutri obssessão carnal me desprezaram. E Elaine era todas elas. Seu nome, Elaine, é uma suposição, pois nunca perguntei. E naquela noite, a comi com fúria e paixão. Chupei sua boceta como se beijasse a mais sagrada das santas, como se chupasse a Virgem Santa em pessoa. 20 reais na mesa. 20 reais na mesa. 20 reais na mesa. A cena repetida a exaustão era agora minha rotina mais familiar. Nunca comi tanto Elaine como agora. Ela até já sabe meu nome, embora eu tenha preferido não saber o dela. Para mim, ela era Elaine, e era todas. A conhecia tanto que não tinha mais segredos. Seu cú, boceta e boca eram singelos adereços agora. Eu estava comendo sua alma. Ela devorava minhas inseguranças, engolia o subtexto da minha porra, e acariciava meu pau enquanto dividia amenidades. Praticamente um relacionamento. Por isso deu merda. Ela deixou de ser todas e virou uma, não minha, mas de todos. Um homem sem recursos se agarra ao menos arriscado, pois não pode perder nada. E ela era o menos arriscado, até aquela frase, enquanto comia seu cú.
" Eu te amo." Como assim, eu te amo ? Eu amo as que não tenho, e você não é elas, por mais que as vezes seja. Gozei. No "o" de amo. Não foi um orgasmo prazeiroso. Foi um vômito, um grito, um desabafo. Chorei muito, sentado na cadeira reservada aos casacos dos clientes. Me senti como um casaco de cliente, algo esquecido por um tempo, para servir como ponte na volta a realidade. Vestir o casaco após comer uma puta carrega em si algo de moralista, por servir como uma máscara que permite a volta ao seio familiar. Um escudo, uma negação. De certa forma, percebi que assim como Elaine era minha fantasia, eu era a sua. Sua fantasia de romance, o resquício escondido da alma da menina que acreditava no amor e na vida. A chance de algo melhor. Após a cena do café, logo fui demitido, sob acusação de assédio sexual. Fui uns dias a mais para vê-la, mas não a vi. Soube através de pessoas do escritório que ela namorava agora o gerente do meu departamento, um boçal sem talento que chegou a um posto de chefia comendo toda e qualquer mulher com mais poder que ele. Uma estratégia feminina adaptada aos novos tempos, de mulheres no poder. Eu não consigo. Não tento. Mas de certa forma, por não estar procurando emprego, aceitei que Elaine não cobrasse e isso é a essência da palavra gigolô. Não achei que seria tão fácil administrar um bordel, mas quando Elaine sugeriu que usasse meu fundo de garantia para comprar o Bordelzinho Azul Calcinha achei que poderia transformar o lugar em uma empresa rentável. Juntei todas as putas do lugar e as analisei financeiramente. O mundo é um lugar de fetiches, e os puteiros, a chance de realização de tudo o que pedimos em silêncio para as esposas e namoradas, no calor do amor. Eu acho, porque nunca tive uma namorada. talvez Elaine seja minha namorada, não sei. Mas pra ela nunca pedi em silêncio. Gritava, ordenava, pedia, mas nunca calava. E vendo-as perfiladas como militares, percebi que aquelas mulheres derrotadas pelo acaso eram armas poderosas contra o moralismo castrador da sociedade estéticamente perfeita. O gemido dos excluídos.
Para administrar uma empresa no submundo, é necessário pulso firme. Eu não tenho pulso firme. Eu sou aquele cara que sempre apanhava no colégio, o cara que não tinha amigos para dar cobertura, nem conhecimento intelectual para suprimir reações enérgicas de adolescentes chapados de hormônios através da psicologia. Eu sou, e sempre fui, um loser. Um perdedor, alguém em quem você descontava sua insatisfação com a mediocridade da humanidade, representada brilhantemente no rapaz tímido de físico franzino incapaz de articular um raciocínio próprio, aquele idiota que geralmente leva a culpa simplesmente por ser incapaz de usar a mente em sua defesa. Eu gostaria de dizer que ao descobrir que o conhecimento é a cura da ignorância minha vida foi transformada pelo estudo e pelo apuro artístico adquirido. Mas sou dono de um puteiro com um estoque de 7 putas malcuidadas e dois velhos garçons, e me sinto o dono do mundo.
Elaine. Manuela. Consuelo. Vera. Ângela. Lúcia. Tereza. Todas escondem uma beleza. Um potencial. Todas tem seus fãs, clientes regulares que lhes dão presentes e dinheiro para comprarem roupas no mercado publico. Para eles, quando elas estão dançando nuas no palco escuro, estão realizando performances exclusivas, declarações de amor, poemas com os corpos nus e a música pop. Estão dizendo eu te amo. As meninas adoram esses clientes. São eles as portas abertas para uma oportunidade de viver sem trabalhar, motivo principal desse mercado ter tanta força de trabalho. É muito mais fácil, por incrível que pareça e que as feministas teimem em chamar de exploração, para essas meninas venderem o corpo por duas horas e ganharem vinte reais do que fazer uma faxina de um dia inteiro por 35. Elas escolhem a prostituição. Eu sei de casos de pais e mães que forçam meninas jovens, de lugares onde os caras catam meninas de rua para explorar em troca de comida, existe muita podridão no meio sim, mas as meninas mais caras tinham outros motivos. E todos, sem exceção, entram nessa forçados não levados por alguém mas por uma entidade muito mais forte. A propaganda. Esse vermezinho interior alimentado por fontes luminosas, leva multidões ao delírio coletivo do ter em detrimento ao ser vendendo seus corpos ou almas em troca de dinheiro para ter. O que, nem sempre se sabe. O engraçado é que nesses casos, mesmo que se ganhe, se perde. Sempre haverá um algo novo, mais caro e inacessivel.
E é nesse calcanhar de Aquiles que concentrarei meus esforços de marketing. Criarei uma identidade visual e uma mitologia para cada uma das meninas. O foda é esse caroço no meio do meu peito que não pára de crescer.
A fachada do Bordelzinho, uma belíssima construção do século 30, foi toda reformada. A parte interna teve a assinatura de uma famosa arquiteta, que pediu para ser mantida no anonimato. As camas agora são revestidas por lençóis finos e por plásticos que permitem uma lavagem rápida e higiênica em menos de 3 minutos. Embora nossas funcionárias demorassem um pouco mais recolhendo para si objetos esquecidos pelos clientes e transformados em presentes para os amigos e família. Eu investi quase tudo no Bordelzinho. sobrou o suficiente para sobreviver por três meses. Mas logo as meninas começaram a faturar. E os problemas a aparecer.
Decidi que, devido a qualidade das novas instalações, cobraria uma taxa de couvert de dez reais. As meninas, que me repassavam 30% de seu faturamento, agora de roupas novas e maquiagem mais eficiente, cobravam 50 reais. Mas os antigos clientes não estavam satisfeitos. Por algum motivo, o Bordelzinho passou a ser frequentado por jovens de classe média, com camisetas de rock e piercings. Eles bebiam todo meu estoque de vinho a 3 reais a dose. Todo meu estoque de cerveja a 5 reais a garrafa. O Bordelzinho era um ótimo negócio, mas os antigos clientes não estavam satisfeitos. E não demorou até a primeira briga ocorrer. Foi a primeira vez que vi Wilson em ação. Wilson foi contratado por mim na rodoviária, como meu segurança particular e não demorou para se tornar um anjo da guarda das meninas, defendendo-as e ao bar como se fossem tudo que ele possuía. Bem, talvez fossem, mas isso ele mesmo pode contar para você.